Se a cena morrer, a culpa ou sua ou porque você tem a obrigação de ir no Tendencies Rock Festival

17 jun

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Hoje começa o segundo fim de semana do 13º Tendencies Rock Festival. Eu ia escrever esse texto no domingo passado, mas estava tão consumida pela tristeza e decepção e frustração e raiva que achei melhor guardar para um momento de menor stress. Como esse momento chegou, a frase inicial é: Vamos lá!

No último fim de semana, sexta, 10, e sábado, 11, eu bati ponto no Tendencies pra conferir a programação desta edição. Lucky number 13! Retirei meus ingressos no mesmo dia em que o Porkão anunciou que iria fazer a distribuição gratuita e isso significa que às 14h estava na porta do Culturação pra escolher quais dias iria comparecer ao festival.

O line-up estava interessante, e principalmente, pra mim, a programação do primeiro fim de semana parecia sensacional. Várias bandas tocantinenses que eu queria ver ao vivo há meses somados a grupos de fora que eu não queria perder por nada resultaram em uma programação excitante! O Moxine tinha sido um dos melhores shows que já tinha visto na casa há anos atrás e tava muito na pilha também pra ver o Ivan Márcio feat. Martin Burguez. Não deu outra, foi um fim de semana inesquecível de excelente música ao vivo.

Tudo poderia ser perfeito se não fosse por um detalhe: o público. Quando cheguei, ainda no primeiro dia do festival, encontrei um Tendencies vazio. Artistas com uma qualidade incrível fazendo apresentações para pouquíssimas pessoas. Achei que seria diferente no segundo dia, mas não foi. Mesmo com a distribuição de ingressos gratuitos, mesmo com a possibilidade de trocar uma entrada por um quilo de alimento até 18h do dia do evento, mesmo com uma programação sensacional, mesmo não tendo nada de exclusivo acontecendo na cidade naqueles dois dias específicos, o festival estava vazio. Isso me leva ao questionamento mais óbvio de todos: PORQUE? PORQUE? PORQUE?

Me desculpem, eu simplesmente não entendo. Porque mesmo que você não tenha dinheiro pra comprar cerveja você ainda pode se embebedar antes de sair de casa pra aproveitar a música! Mesmo que você diga que não sabia que os ingressos eram gratuitos, você ainda podia ligar no Tendencies, ou questionar o Porkão no Facebook o valor da entrada e ia acabar descobrindo que eram de graça. Todo mundo faz isso hoje em dia. É super simples, é super fácil. A culpa não é da programação, muito menos da falta de divulgação com flyers do festival rodando em todos os grupos de Facebook e Whatsapp que conhecemos. Assim, concluímos que É inadmissível – INADMISSIVEL – que aqueles shows não estivessem lotados. É o tipo de coisa que não se perdoa.

Vocês sabem que eu não gosto de rock pesado, heavy metal, hard core. Nunca gostei, não é a minha praia. Mas eu ia em TODAS as Rakans (não sei se é assim que escreve), aqueles eventos que o Pastor Alberto realizava na Feira Coberta da 304 Sul onde só rolava show de banda gótica, simplesmente porque queria estar perto de quem gostava de rock’n’roll como eu. Porque eu morava numa cidade que não existia uma cena, então qualquer possibilidade de encontrar pessoas que se rebelavam como eu, parecia um sonho, mesmo que não fosse o meu ideal de sonho com alguma banda tocando algo parecido com The Strokes.

Eu estava lá e continuo estando lá porque eu amo música, e nem música eu sou!! Eu sou apenas uma jornalista ruim tentando escrever um livro que provavelmente não vai ficar bom, mas que pode garantir pra vocês que 90% das melhores coisas que aconteceram na minha vida, que 90% das minhas experiências mais fantásticas foram assistindo a um show ao vivo. Não importa de quem. Eu ia pela música.

Não dá pra entender como não estava TODO MUNDO no Tendencies na semana passada. Como as bandas que estão na programação dessa semana não estavam no Tendencies na semana passada, como a galera que movimentava a cena no início dela (quando ela ainda nem era considerada nada), não estava no Tendencies na semana passada, como esse monte de menino e menina que anda pela rua usando camiseta do Led Zeppelin não estava no Tendencies na semana passada, como TODO MUNDO QUE TEM BANDA E QUE JÁ TOCOU OU USA O TENDENCIES COMO PALCO PRA SE APRESENTAR, não estava lá semana passada. Não-dá.

Como? Como a gente ficou assim? Como a gente deixou as coisas chegarem ao ponto de um festival consolidado, com uma puta programação não estar simplesmente lotado? A gente não tem vergonha? Porque eu tenho vergonha. Eu tenho vergonha pelos artistas que estão se apresentando e dando tudo e mais um pouco de si, não importa se eles são daqui ou se vieram de outros lugares, eu tenho vergonha de vocês por todos eles. Porque nada justifica isso, e se você falar alguma coisa contrária você vai estar simplesmente inventando desculpas mentirosas pra aliviar sua própria consciência.

Não é fácil gostar de rock. A gente cresce sendo esquisito, ouvindo isso de toda a família e com uns sentimentos de contestação do mundo e das coisas que parece que ninguém tem. A gente é inquieto e gosta de ouvir música barulhenta pra ficar calmo e as pessoas olham pra gente como se fossemos de outro mundo ou tivéssemos alguma doença contagiosa. Quando você gosta de rock você escolhe um caminho sem volta porque você não vai ser aceito em qualquer lugar e você vai ler tanto sobre as bandas que gosta, que se você for esperto, vai absorver mais um monte de informação que não tem nada a ver com música porque a arte é assim mesmo, uma loucura.

E eu acho que quando a gente se encontra, quando a gente se acha, quando a gente tem a oportunidade de reunir o máximo de pessoas num mesmo lugar pra ouvir música AUTORAL DE QUALIDADE, a gente tem a obrigação de ir. Por mais diferente que aquele som seja do que você escuta no seu mp3player. Sse você ama a música, se você ama o rock’n’roll você VAI. E VAI. E VAI. E VAI.

A cena nunca vai existir se a gente continuar lotando todos os tributos e festas com música pop dançante e não apoiar os artistas que escrevem suas próprias canções. Não importa se elas são boas ou não. Se não houver participação, se não houver gente pra trocar ideia, a cena nunca vai melhorar. Se não tiver público, não tem música. Vocês não entendem isso? Vocês não entendem que a gente tá regredindo??? Que a gente tá voltando no tempo? Pra um tempo onde não haviam festivais porque não havia público. Não estamos nem falando aqui de não haver festivais porque não tem ajuda nenhuma do poder público (e vale frisar que MESMO NÃO TENDO AJUDA NENHUMA DO PODER PÚBLICO PRA ESSA 13º EDIÇÃO, QUE JÁ DEVERIA FAZER PARTE DO CALENDÁRIO DE EVENTOS DA CIDADE, O PORKÃO FEZ O FESTIVAL ACONTECER), a gente tá andando pra trás. Antes a gente precisava de dinheiro e lugar, agora a gente tem os dois e uma puta força de vontade e vocês não estão lá.

Por isso, nesta sexta, 17 (lucky number 17!), você tem a oportunidade de se redimir. Eu compartilho esse texto bem cedo pra você entender que se você ainda não pegou seu ingresso GRATUITO, você precisa fazer isso e bater seu ponto logo mais no segundo fim de semana do festival. E eu to sendo dramática mesmo, porque to falando de um cenário como de ‘História sem Fim’, o filme clássico do Cinema em Casa da década de 90. Lembra da frase da princesa que dizia que ‘se você não fizer nada, Fantasia morrerá?’. Pois então. Essa responsabilidade é sua. Você que é artista nessa cidade, você que se orgulha de tocar um instrumento e usar uma calça rasgada e ouvir uma guitarra distorcida, você que como eu, ama a música com todas suas forças, a responsabilidade de manter a cena viva é minha, é sua e é de todos nós. Não importa se você gosta da banda, não importa se você gosta do gênero, você vai pra conversar com os amigos, pra ouvir algo diferente e pra trocar ideias. Pra movimentar a cena, pra fazer ela evoluir.

E novamente por isso, eu (esse texto está super pessoal e cheio desse pronome), aproveito pra compartilhar os shows desse fim de semana. Que não deviam nem importar na hora de você tomar essa decisão, mas quem sabe acaba sendo um incentivo a mais. Quanto a mim e a vocês, eu só tenho uma coisa a dizer: nos encontramos mais tarde.

Sexta-feira, 17
Trampa (DF)
Rocan (DF)
A Orden S/A (TO)
Etno (TO)
STF (TO)

Sábado, 18
DPR (SP)
Escarnnia (TO)
Girlie Hell (GO)
Indogma (TO)
Autocracia (TO)
Ágorah (TO)

Os shows começam às 21h45.
Os ingressos podem ser trocados até às 18h do dia do evento na loja Culturação, do lado do Tendencies, por um kg de arroz, feijão ou um livro de óleo.

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