Cascatá e o resgate da cena independente e da cultura tocantinense

16 mar

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No Carnarock resistência desse ano eu consegui pegar um dia da programação e curtir uma noite de um Tendencies de casa cheia (o preço era bem amigo, um crowdfunding que permitia que cada um pagasse R$2 no mínimo pra entrar e o máximo de quanto desejasse), com bandas tocando música própria e animando a galera. Isso é raro, diga-se de passagem.

E falo isso com conhecimento de causa, afinal, vi o Boogarins tocando em Palmas pra um público minúsculo (pequeno de verdade) numa fase que eles já tinham se estabelecido como um grupo independente no País, fazendo turnê de um álbum excelente. Olha só, estamos falando de uma banda que já lançou dois discos que foram sucesso de crítica e tocam muito em festivais pelo Brasil e pelo mundo e que a gente teve oportunidade de ver tocando aqui, na nossa casa.

Por isso, mais do que nunca, é de um prazer sem tamanho poder ver o palco sendo ocupado por quem canta as próprias letras e compõe as próprias músicas. Assim como é fantástico ver a roda girar e o público pagar pra ver uma banda autoral lançando algum trabalho novo.

Voltando ao Carnarock, preciso dizer que sai de lá com minha expectativa superada. Uma das bandas da programação me surpreendeu demais e é sobre ela, e sobre o apoio a cena local e sobre a necessidade do fomento a música autoral que vamos falar hoje aqui nesse blog!

Misturando música tocantinense de raiz, música popular brasileira e problemas da atualidade, eis que em Palmas , em pleno 2016, surge a Cascatá, uma brisa fresca nesse cerrado árido.

Formada por Diogo Souza (violão/guitarra), Mário Vianna (percussão/voz), Iury Vilar (baixo) e Luiz Izidoro (percussão), o grupo tá lançando nesse fim de semana, no mesmo Tendencies que tocou no carnaval, seu primeiro EP na festa ‘Groove e Batucada’.

O trabalho de cinco faixas é todo influenciado pela música tradicional do Estado. A Sússia, a catira e o tambor estão incorporados em todas as canções do grupo, assim como temas que fazem parte da história cultural do Tocantins, mas que raramente ganham espaço nas letras de bandas independentes.

Os índios, quilombolas e as tradições tocantinenses, como a festa do Divino, por exemplo, são protagonistas de versos e refrões. Gosto da ideia do experimentalismo e do flerte com as guitarras do rock’n’roll e acredito muito na abordagem moderna e atualizada de uma música centenária. Aproxima os jovens da cultura de raiz com uma linguagem sonora que faz sentido pra eles. E se afeta a juventude de forma positiva e assim os coloca em contato com a riqueza cultural que o Tocantins tem, ponto pra Cascatá!

Pra festa de lançamento os caras convidaram os Tambores do Tocantins, projeto musical liderado pelo percussionista e produtor Márcio Bello. Simbiose perfeita, escolha acertadíssima.

To mega curiosa com essa apresentação da Cascatá porque a primeira performance que assisti se limitou a 35 minutos e uma banda relegada a uma programação mega diversificada. Agora eles assumem o comando e regem a noite.

O surgimento da banda é também simbólico e providencial, na minha opinião, claro. Vivemos numa época em que os músicos precisam sobreviver de tocar em barzinho ou de ensaiar covers pra tocar em tributos, e também na minha opinião, clarom isso não faz bem pra cena. Pra ela continuar existindo e com originalidade e personalidade é preciso que exista a música própria, o ato de sentar e criar, pensar em algo que nunca foi feito, experimentar e desafiar os limites do que já existe por aí. Por mais que a gente ame as bandas consagradas, a evolução natural parte do novo, do que é feito no presente. Mesmo que isso tenha influências no passada, afinal, as configurações precisam ser atualizadas.

Por é claro também que eu vou assistir ao show. Num ano que a gente não teve PMW Rock Festival e que o festivais do Porkão tão acontecendo com estrutura menor pra não dar tanto prejuízo, é com urgência que a gente precisa marcar presença em apresentações dos nossos artistas. De quem precisa do público pra sobreviver. Afinal, a música existe pra gente, mas pro artista existir ele precisa de dinheiro.

Me dói demais perceber a falta de interação entre os nossos músicos, que não vão aos shows uns dos outros, que não prestigiam, que não batem ponto, não marcam presença. Pra cena acontecer todo mundo precisa tá junto e escutar coisas novas, fazer intercâmbio, trocar mixtape e ideias. O fomento ao público vai rolar porque o cara da banda x vai indicar a banda y e o público inteiro vai estar lá, sedento pra escutar aquele novo som. Nunca percebi o movimento tão desconectado, tão longe um do outro, tão sem comunicação.

Todo mundo quer que funcione né mesmo? Todo mundo quer que dê certo e quer casa cheia e quer cantar músicas com as quais nos identificamos de verdade, então pra isso acontecer a gente precisa comparecer, estar lá, ouvir, prestar atenção, criar essa conexão com o que está nascendo na nossa frente.

Na sexta eu vou. Tenho fé na cena, sempre tive e acredito que uma banda como a Cascatá, que nasceu da junção de um monte de artista que já tem muito tempo de estrada e experiências musicais completamente diferentes, me dá a certeza de que a gente pode se recuperar, porque acho que já estabelecemos que criatividade não é o que falta pra nós.

Com a Cascatá eu vejo nascer o nosso mangue beat, e por consequência, a nossa Nação Zumbi. Tá foda. Ficou curioso? Então dá o play ai e tire suas próprias conclusões. A prova dos nove rola nesta sexta, a partir das dez e meia lá no Tendencies Music Bar. Te encontro lá 🙂

 

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  1. Banda Cascatá: Entrevista | Blog da Cica - 17 de março de 2016

    […] quem ainda está perdido, se liga porque no post de ontem eu linkei todas as faixas do EP pra vocês ouvirem super facinho no Soundcloud.  Pra ficar com […]

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