Amar, Modo de Usar: Lançamento, entrevista e muito orgulho

4 maio

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Nem sempre esse espaço consegue dedicar o tempo e as palavras que gostaria pra um segmento artístico que eu tanto valorizo, a literatura. Me enfurno nessa coisa de falar de música e não consigo sair disso, talvez, seja por causa da minha relação próxima com as palavras, não dá pra saber, mas antes que vocês reclamem, considerem esse post como uma forma de redenção. Ou pelo menos o início dela.

Começar escrevendo aqui sobre um lançamento de uma obra  que só foi possível por meio de um financiamento coletivo é algo que me deixa extasiada, sabem porque? Porque isso significa que as pessoas não desistiram de ler livros.  Que apesar de toda a frase feita de que ‘ninguém mais gasta dinheiro com isso’ eu percebo que isso não é verdade. Se um financiamento coletivo pra lançar um livro, consegue o tornar real, isso significa que as pessoas ainda precisam disso na vida delas e isso é de dar esperança nos dias de hoje.

E pros amantes da literatura, daqueles tradicionais que andam com livros nas bolsas e com uma lista de títulos pra adquirir, esse blog chega com notícias boas. Nesta sexta, 06 de maio, o Diego Engenho Novo (sim! aquele que cantava na banda Engenho Novo!), retorna a Palmas pra lançar seu primeiro livro, ‘Amar, Modo de Usar’.

Um compilado de crônicas ‘sobre amor, relacionamento, felicidade, família, sobre viver com verdade e delicadeza’, como mesmo diz o texto do financiamento no Kickante, que com esforço de amigos e uma campanha sobremaneira nas redes sociais atingiu sua meta. Sorte nossa né?

Como resultado da ajuda de 342 pessoas um total de R$20.462 foi arrecadado e como prometido, Diego tá chegando nesta sexta pra lançar o livro em Palmas, cidade que segundo ele foi a que mais teve participações nas doações do projeto. Daqui ele segue pra Gurupi pra fazer o lançamento por lá.

Depois de uma banda que tinha seus bons fãs tocantinenses, de uma mudança pra SP e de um blog delicioso de ler, Di chega agora com um novo filho nos braços. E pra todo mundo que tá curioso pra ler o livro, se liga no bate papo exclusivo e delicioso que eu tive via e-mail com o Diego. A conversa foi sobre amor, claro, mas também foi sobre como foi pra ele se encontrar como artista, sobre o Tocantins, sobre SP, sobre as relações no século XXI, sobre dar a cara pra bater e sobre esse livro que a gente tem tanto orgulho de chamar de nosso também. Então… Bora ler?

Di, quero começar a entrevista falando de você. O Diego já foi estudante de jornalismo, já teve banda, foi embora, trabalhou com redação publicitária e agora está lançando um livro sobre o amor. Quem é o Diego que as pessoas veem e conhecem e quem é o Diego para você que viveu esse caminho todo?

O mais engraçado é que eu acho que todas essas etapas fizeram muito sentido, Ciça. Hoje eu nem mesmo tenho violão em casa (preciso corrigir isso rapidamente!). Talvez volte a desenvolver algum projeto na música, mas eu curto mesmo cada fase a que me proponho. Eu acho que algumas pessoas têm dificuldade de entender que há uma diferença entre eu músico, que vivia na noite e esse meu período de agora, mais recluso em que estou escrevendo.

Você já teve banda e já foi envolvido com a música, como a arte de escrever virou literatura?
Ah, eu hoje vejo que eu sempre escrevi, né? Eu compunha as músicas da banda, gostava de contar histórias no palco, mas conforme fui me descobrindo como artista e pessoa, saquei que rebolar no palco era divertido, mas que eu não poderia fazer aquilo pra sempre. Além disso, por mais feliz que tenha sido como músico, o que faço hoje toca as pessoas de forma incomparavelmente mais profunda. Me realiza mais. Antes, eu era um músico que escrevia. Hoje me sinto mais como um escritor que gosta de cantar. Amanhã, sei não…rs.

Me fala sobre o livro, como foi o nascimento dessa obra? Do que ela fala?
O livro é uma reunião de cerca de 110 crônicas, algumas escritas nesses quatro anos da existência do meu blog, o Palavra Crônica, e outras inéditas. Apesar de ter selecionado textos com mais foco nos relacionamentos, tem também histórias sobre viagens, sobre o cotidiano. Tinha mandado ele pras editoras, mas o mercado está enfraquecido por causa da crise, o papel é comprado em dólar. Enfim, não queria esperar mais dois ou três anos para publicar. Decidi fazer de forma independente. Mãe solteira.

Você diz na descrição do projeto de financiamento do livro no kickante que seu sonho era estar próximo das pessoas e o livro seria um meio pra isso. As histórias contadas são uma visão sua do que aconteceu com as mulheres incríveis e fortes que inspiraram o livro, é outra coisa que você diz. Quem são essas mulheres? Amigas? Colegas de trabalho? Companheiras de uma viagem de metrô? E como essas histórias mudaram a sua percepção do amor?
Tenho sorte de ser cercado de mulheres incríveis: mãe, avó, irmã, amigas e pessoas que vou conhecendo também na rua, nos eventos. São Paulo tem sido muito rica nesse sentido, não somente por ser uma cidade grande, mas porque a impressão que tenho é que todo mundo aqui tem muitos sonhos, sonhos grandes e as melhores histórias surgem daí. Elas me ensinam constantemente sobre generosidade, sobre paciência, sobre se empenhar para estar numa relação. Tento transmitir isso de alguma forma, mas não estou dizendo que já coloquei tudo em prática (haha). Assim como todo mundo, eu tô tentando sobreviver a essa loucura toda.

‘Amar, Modo de Usar’ são 100 (mais ou menos) crônicas sobre o amor e suas co-relações. Na sua opinião, qual a maior dificuldade das pessoas hoje quando se pensa em amor? A configuração das relações sob o olhar das redes sociais, da internet, dos celulares, mudou alguma coisa na essência do modo de amar pra você? O amor mudou? As relações mudaram?
Tenho dó da gente, sabia? A gente, como sociedade. Nós, principalmente a minha geração que também é a sua, fomos educados num período de transição: ainda tivemos forte influência da concepção romântica das relações, do amor eterno das histórias da Disney, e a chegada das novas configurações de relacionamentos. Estamos perdidos nessa confusão aí: entre a vontade de ter alguém e a necessidade de sermos nós mesmos ao extremo, de não reprimirmos nossos desejos. A internet veio temperar ainda mais essa história: se por um lado ela nos permite estar mais próximos de quem amamos, por outro ela nos deu a falsa sensação de que pessoas mais interessantes podem surgir (e certamente surgirão), de que relacionamentos são descartáveis (e talvez sejam em certo nível) e de que os outros relacionamentos à volta são perfeitos. O que nós vemos dos casais à volta são viagens incríveis, carinho e afeto. Parece que todos têm relações muito mais favoráveis que as nossas. Essa falsa imagem está destruindo muitos relacionamentos, na minha visão. Estamos redescobrindo o relacionar-se. Eu só digo uma coisa pra vocês: tá complicado mesmo pra todo mundo. Vamo se abraçar, gente.

Hoje você mora em SP uma cidade gigante em que a vida de cada pessoa acaba sendo um pouco solitária, ou pelo menos essa é a sensação de quem vê de fora. Criolo cantou que não existe amor em SP, e acho eu que você deve ter escrito o livro, ou boa parte dele já na capital paulista. Como SP atuou nesse processo? A cidade e a maneira como as pessoas vivem aí, e consequentemente como você vive aí, influenciaram em alguma coisa? Definiram alguma coisa?
Olha, quando cheguei aqui isso foi uma das primeiras coisas que pensei: como as pessoas se relacionam, amam, são felizes numa cidade em que é tão fácil se perder do outro? Mas é justamente ver como o amor consegue ser fértil, mesmo num ambiente tão hostil que tem me inspirado muito. As pessoas se beijam nos engarrafamentos, ficam abraçadinhas esperando o metrô, existe muito amor em SP. Essa sensação de solitude elevada ao extremo, essa melancolia da cidade faz muito bem ao texto. Mesmo pessoas que moram em cidades menores sentem a mesma solidão das minhas personagens.

Você tem uma história com o Tocantins, mas hoje você já foi embora e agora volta para o lançamento do livro. Como é a sua relação com o Estado?
Sinto falta das minhas origens, das comidas, saudade de casa, né? E adoro falar sobre o Tocantins. As pessoas aqui acham fascinante saber como funciona Palmas, uma cidade planejada, como é o interior do estado, como é ter vivido em um estado que foi dividido ao meio. Ficam encantadas quando falo de Taquaruçu, do Jalapão, do pequi, dos bolinhos de araruta da minha vó. Minha relação é de orgulho. Meus melhores amigos estão no Tocantins. Mas também me sinto muito em casa aqui, gosto de como São Paulo provoca, se insinua. Eu quero que meu estado ainda possa se orgulhar muito de mim.

Porque fazer o lançamento em Palmas?  Como é voltar?
Durante a campanha, nós lançamos um desafio: a cidade com o maior número de contribuições receberia o lançamento. Felizmente foi Palmas. Mais de 40% das contribuições são daí. Por outro lado, eu sempre imaginei em ir lançar no Tocantins, porque as pessoas que mais amo estão aí, muitas delas estão no livro (inclusive sob pseudônimos). Desde que me mudei, eu voltei apenas uma vez pro Tocantins pra visitar a família e foi super às escondidas, porque queria passar o máximo de tempo possível com eles. Agora é uma chance de estar mais com outras pessoas que são importantes pra mim, tem também muita gente que eu não conheço ainda, leitores que surgiram depois que me mudei e ficam surpresos quando digo que eu vivi toda a minha vida entre Gurupi, Palmas e Araguaína. Voltar é incrível e quero poder fazer isso com mais frequência.

O processo pra fazer o livro acontecer veio do financiamento coletivo. Acredito que isso torna a consolidação do livro muito mais importante pra você, cada cota comprada, cada pessoa que participa. Como foi tudo isso?
Muito! Porque financiar um projeto dessa forma significa que as pessoas acreditam tanto no seu trabalho ou na sua intenção artística que decidem investir antes mesmo de você ter algo concreto para oferecer. Elas se arriscam junto com você. Não se arriscam a perder dinheiro, mas a se frustrarem. Toda a campanha foi trabalhosa, mas muito divertida. Cada pessoa que contribuía aproveitava pra dizer algo lindo, lembrar de algum momento, ou dizer que admirava o meu trabalho. Eu fiquei inseguro quando lancei a campanha. Conseguir R$15mil parecia muito. Parecia que as pessoas não viriam. Ultrapassamos os R$20mil e pude cuidar de perto de cada aspecto desse novo trabalho. Mas meu medo era não frustrar as expectativas dessas pessoas, mas assim que peguei o livro fiquei seguro de que todos ficariam tão felizes e orgulhosos do que fizemos juntos quanto eu.

Me diga e diga aos leitores do Blog da Ciça porque todo mundo precisa ler esse livro!
Porque esse livro fala sobre um lugar por onde todos já passamos ou ainda vamos passar e eu sou um ótimo companheiro de viagem.

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EXPLICANDINHO
Palmas

O que: Lançamento do Livro ‘Amar, Modo de Usar’
Quando: 06/05, , 20h às 22h
Onde: Serreal – 103 norte av NO 05 lote 48 (antigo Roots, saída para Paraíso)
O que vai rolar também: Após o lançamento, show com o Quinteto Babaçu Jazz (ingresso R$ 5,00 até 23h)

Gurupi
Bamboo – Av. Bahia, esquina com Rua 07, Centro.
Lançamento do Livro 19h às 21h
Após 21h30, música ao vivo e couvert artístico de R$ 5,00

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