The O.C : Dez anos de muita saudade

23 fev

Passei a minha infância e adolescência inteira dividindo meu tempo entre livros, filmes e seriados. Não é que era daquelas crianças que não tirava a cara pra fora de casa, mas sempre preferi passar meu tempo assim. Na verdade, não mudou muita coisa do que acontece hoje em dia na real.

Sendo assim, é óbvio que grande parte da minha vida e minha personalidade foram influenciadas pelo que assisti na TV e li nos livros. Me inspirava nas personagens que me identificava, nas músicas que elas escutavam, no corte de cabelo, nas roupas…

Era fácil quando havia uma certa compatibilidade porque eu não me sentia tão esquisita ou sozinha no mundo, afinal, mesmo que não houvessem pessoas no meu convívio que se relacionavam com o meu universo, eu sabia que elas existiam de alguma forma. Isso, pra uma adolescente com a cabeça fodida, pode ser um pouco facilitador.

Por isso, um dos pontos altos da vida pra mim, nessa fase complexa e difícil em que a gente vive com o peso doido, o rosto cheio de espinha e uma vontade de sumir que não passava,  foi descobrir a série The O.C. A Califórnia, que antes habitava meu imaginário como um lugar cheio de gente preocupada com saúde e beleza, parecia ser o lugar mais legal do mundo pra viver.

Eu amava todos aqueles personagens (Seth, Summer, Ryan, Marissa, Kirsten, Sandy, Luke, Julie…) e as referências que vinham com eles. Games, filmes, livros e principalmente e disparado, a música. Que trilha sonora era aquela?!

De repente era fácil responder a pergunta: ‘Que tipo de música você escuta?’.

Eu não precisava mais me sentir deslocada citando um monte de bandas que eu sabia que a maioria das pessoas não conhecia. Era só dizer, ‘Você já viu The O.C? Gosto de tudo aquilo que toca lá. Tipo, tudo’. Não ter que explicar era a melhor parte.

Como a música indie sempre foi um mistério por essas bandas e por muito tempo, gostar de Spoon ou The Thrills não fazia sentido pra ninguém, era delicioso assistir um episódio e ouvir a minha trilha sonora como trilha sonora da série. Quantos grupos, artistas e músicas conheci por causa do seriado? Se citavam em algum episódio eu corria pra baixar o disco.

Tudo tinha sentido. Ali na televisão estavam pessoas que usavam as mesmas roupas que eu. Tinham o mesmo cabelo estranho, gostavam das mesmas coisas e passavam pelos mesmos dilemas, resguardando-se as proporções de um seriado de televisão drama-teen, claro.

Seth Cohen é até hoje meu male crush (eterno!) e se tornou o exemplar-base pro todo tipo de cara que me envolvi desde então. Não dava pra encarar quem não conhecesse Death Cab for Cutie. Era como um teste pra saber se valia a pena levar a relação adiante.

Hoje fazem dez anos que o último episódio de The O.C passou na televisão americana. Desde então eu já assisti e re-assisti o seriado mil vezes, tenho pastas e pastas com a trilha sonora das temporadas e não consigo ouvir Phatom Planet sem lembrar daquela época. Se 2007 parece próximo, 2003 (quando o seriado começou a passar), parece outra vida.

Em comemoração aos dez anos de despedida de O.C da TV, a Nylon fez um post com os vinte momentos musicais mais memoráveis do seriado e eu to aqui maravilhada com cada um deles.

Da abertura com ‘California’, os shows do Bait Shop (a casa de shows que eu queria frequentar), os momentos de briga e de fazer as pazes entre Seth, Summer, Ryan e Marissa (que não eram poucos) e as canções que ganharam versões muitas vezes melhores que as originais (sabia que O.C tem um álbum inteiro só de covers?). Vale muito dar play e ver cada videozinho só pra matar a saudade um pouco.

O.C, que hoje tá no Netflix pra todo mundo (inclusive essa geração sem referência de nada) assistir, ocupa um lugar gigante no meu coração. Pra quem tá com preguiça, fica com o top five aqui das minhas favoritas (pelo menos por hoje) que faziam parte da trilha sonora da série. Welcome to the O.C bitch!

The Thrills – Big Sur

Pra que mais O.C do que essa banda e essa música e essa estrada?

 Matt Pond PA – Champagne Supernova

A música é do Oasis e a original é bem ótima, mas essa versão ai não deixa muito a desejar. Cena linda da Summer dando beijo de Homem-Aranha no Seth <3.

Spoon – The Way We Get By

Essa música pra mim era sinônimo de O.C porque o ep em que ela tocava mostrava justamente uma cena na praia de Newport que era totalmente o que todo mundo achava que se tratava o seriado, mas só que não.

Jeff Buckley – Hallelujah

É claro que o original do Leonard Cohen é simplesmente uma obra prima, mas essa versão do Buckley nesse ep me fez (e ainda faz!) chorar tanto, que não poderia deixar de ser uma das favoritas of all time.

Death Cab for Cutie – Lack of Color

Death Cab é uma das minhas bandas favoritas da vida, assim como era de Seth Cohen, e eu amo todos os discos, mas essa música ainda me deixa arrepiada até hoje.

BONUS EXTRA EXTRA!

Bloc Party – Blue Light

Eu não sei por onde o Bloc Party, mas essa banda eu conheci graças a esse seriado e eu adoro o primeiro disco desses caras e eu ouvi durante uns três anos sem parar e até hoje eu tenho um amor enorme por eles e devo tudo a essa trilha sonora perfeitamente perfeita.

Apoio Cultural: O novo curta metragem que a gente respeita

16 fev

Fazer arte não é fácil. Trabalhar com gestão de cultura muito menos. Quando juntamos as duas pontas desse nó em um só espaço, o resultado é no mínimo interessante.

A prova disso é o novo curta metragem palmense ‘Apoio Cultural’. Com elenco repleto de rostos conhecidos, por quem frequenta a cena artística da Capital (e nesse momento, que fique claro, é impossível delimitar esta cena, já que em Palmas todo mundo se esbarra nos mesmos lugares), o curta, que trata justamente dessa complexa relação, é assertivo e bem humorado.

Durante quinze minutos, ‘Apoio Cultural’, que tem direção, produção executiva e roteiro original de Juliane Almeida, reúne numa fila de espera pra seleção de um edital, um grupo de artistas tão heterogêneo quanto à formação populacional da capital mais nova do país, onde o filme foi realizado.

Em Pouso Raso, uma cidade ficcional, mas que bem poderia ser um município mais perto de você, três gestores culturais que irão selecionar o projeto mais interessante se sentam atrás de uma mesa e se põe a ouvir as mais absurdas sugestões.

O desconhecimento artístico, a falta de paciência e a falsidade juntam-se a um entusiasmo forçado e preguiça de fazer a coisa acontecer, que acabam por fazer do time de técnicos uma verdade à parte.

No curta, Paulo, Kaká e Bell são os responsáveis por gerenciar estas audições. São eles quem entrevistam os artistas que apresentam suas ideias. Um trio que funciona muito bem junto, com destaque pro comediante Paulo Vieira, que interpreta o técnico menos interessado no que acontece por ali, e por consequência, o mais cruel de todos os três.

A burocrata e mandona Iva é quem direciona os artistas para suas audições. Trata bem e mal aqueles que a convém. É a personificação exagerada de uma servidora pública de conveniência, ora quer, ora não tá nem ai.

No time dos artistas que pretendem concorrer ao prêmio não faltam os conhecidos clichês. Nele está Cleuda, uma produtora cultural que bem poderia ser colunista social ou a esposa perdida de alguém com muito dinheiro. Pietro, o clássico artista que não deixa ninguém falar e se confunde com suas próprias ideias malucas. Foppa, o estereótipo mais horrível do roqueiro babaca que só quer curtir. Nanda, a pseuda artista poeta amante da natureza performer dançarina e cansativa. Nival, aquele que vai se submeter a qualquer produção meia boca pelo dinheiro do edital e por fim, Hitalon, o pretenso cineasta, que na verdade só se interessa por visualizações nas redes sociais e sensacionalismo.

Com poucos recursos de cenário e apostando mesmo no roteiro, a diretora e roteirista, que provavelmente sabe muito bem do que fala, tem um elenco com bom timing pra comédia, e que torna a produção leve e divertida.

‘Apoio Cultural’ é curto, como o gênero manda, e passa mais rápido do que os 15 minutos aos que se propõem. Com piadas precisas e uma ficção que muito parece com a realidade. O curta é um misto de tristeza e alegria pra quem convive com alguém que participa, produz, escreve, pinta, dança, cria música, faz filme e se mete a mexer com arte.

Quando chegamos ao fim, a lição que fica é aquela do lettering de qualquer filme baseado em realidade que se preze precisa publicar: qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência.

Rolêzinho Vintage! Novidades!

15 ago

Como tô sem tempo pra escrever aqui – tipo, agora é SÉRIO, vou replicar toda semana os textos que to mandando lá na minha coluna do site Gazeta do Cerrado.

Passem por lá, passem por aqui, o importante é que vocês leiam e que eu não deixe esse blog morrer.

owen0715-stranger-things

Pra começar…

Quando a Maria me convidou pra escrever uma coluna aqui eu só disse sim porque o convite era para que este espaço falasse de moda. Surgia então a oportunidade perfeita para que eu escrevesse sobre uma das coisas que mais gosto na vida, e ao mesmo tempo, eu poderia fugir do tradicional ‘música/cinema/literatura/televisão’ que tanto me perseguem (mas que também amo de coração).

Mas agora, neste momento em que estou aqui sentada pra escrever o texto, e enquanto toca Joy Division ali no som, percebi que uma coisa não existe sem a outra. Tá tudo conectado mesmo. De verdade.

Não existe a possibilidade de falar de moda, principalmente de moda vintage, o tema central desta coluna, sem falar de tudo aquilo que a rodeia, que serve de inspiração, que vem a ser justamente os temas adjacentes citados acima.

Então pra começar, aviso aos leitores que surgirão: essa coluna vai ser confusa. No bom sentido, mas será. Vai falar de tudo ao mesmo tempo porque se a vida acontece assim, porque não a moda? Aviso dado, let’s go!

3840 (1)

Vocês já ouviram falar da nova série queridinha da Netflix, ‘Stranger Things’? Terminei numa maratona insana esse fim de semana os oito episódios da produção que tá conquistando fãs ao redor do mundo, especialmente no Brasil. A trama se passa no ano de 1983, em uma cidade do interior dos Estados Unidos, quando depois de um dia inteiro de uma batalha de Dungeons and Dragons entre um grupo de quatro amigos, na volta pra casa, um deles desaparece.

O resultado é que tá todo mundo surtando com essa história que te deixa de cabelo em pé durante os cinquenta minutos de cada episódio e principalmente com todas as referências que o seriado faz a filmes que tanto amamos, como ‘E.T’‘Conta Comigo’‘Goonies’‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’ e ‘Alien’, só pra começar. Brasileiro é nostálgico e não consegue se separar do que viveu, então eu acredito que isso também serve pra apontar como um dos motivos dessa paixão louca que surgiu no público por aqui.

image08 (1)

Mas a verdade é que série é ótima, principalmente pra mim que adoro ficção científica. E principalmente pra mim, que tenho os dois pés no passado. Talvez seja justamente por isso que resolvi abrir um brechó. Porque não é só amar moda, é amar moda com cara de velha, ou com referência de antigo. Não é só sair de casa parecendo que sai de uma máquina do tempo. Não bastava só visitar todas as lojas de usados, segunda mão, vintage shops em todas as cidades que vou, eu tinha que trabalhar com isso também. E pra mim, é justamente por causa desse clima vintage que o seriado ganha mil pontos comigo.

image00 (1)

A caracterização dos personagens é simplesmente um sonho pra quem, como eu, adora peças com aquela pegada antiga. Eu amo os cabelos armados, frisados, Farrah Fawcett, com topetes dos personagens. Adoro os tênis gigantes que iam bem com TODAS AS ROUPAS (salto não era coisa do dia a dia), as jaquetas enormes que tanto meninos e meninas vestiam (não existia obsessão por usar roupas coladas que marcam o corpo), os óculos que tomavam todo o rosto (o que importava era enxergar), as calças de cintura altíssima (que graças a Deus foram resgatadas pelos designers atuais), o boné trucker (que estou pensando em adquirir um), a gola rolê (que deixa todo mundo chique) e claro a presença da Winona Ryder que por si só já é vintage e será vintage a vida inteira, não tem nem o que discutir.

winona-ryder-stranger-things (2)

Depois de assistir a maratona do seriado eu estou numa vibe totalmente oitentista e não consigo tirar as minhas camisetas com mangas ¾, meu converse vintage e meu jaquetão que bate no joelho. Até o cabelo eu tenho amarrado pro lado. Tá muito louco. A real é que mesmo que essas peças tenham vindo de direto dos anos 80, se a gente olhar pras passarelas, ou pros perfis de Instagram de street style é tudo tão atual! Todos os itens estão lá, revistados, reconstruídos, rebatizados, tão presentes!

E por isso é que o vintage funciona, porque se você parar pra pensar vai entender que os clássicos sempre dão um jeito de voltar, é só você aceitar isso e se preparar pra desconstruir a ideia de tendência, de revista de moda, de listinha de must-have.

Pra quem ainda não sabe do que eu to falando, a dica da semana é: assista ‘Stranger Things’. Revisite suas referências, tanto cinematográficas, musicais, quanto visuais.

Tire o pó do disco de vinil, dê play na voz rouca do Ian Curtis, dance ouvindo Joy Division e tire do guarda roupa a peça mais oitentista que você tiver. Uma roupa com cara de The Cure, cheirinho de The Clash, uma pegada de David Bowie e um jeitinho de Madonna. Vai funcionar.

A gente se encontra no passado.

Ou na próxima semana. Até!

Pra ler: http://www.gazetadocerrado.com.br/2016/08/05/cecilia-santos-estreia-coluna-rolezinho-vintage/

Se a cena morrer, a culpa ou sua ou porque você tem a obrigação de ir no Tendencies Rock Festival

17 jun

WhatsApp-Image-20160530

Hoje começa o segundo fim de semana do 13º Tendencies Rock Festival. Eu ia escrever esse texto no domingo passado, mas estava tão consumida pela tristeza e decepção e frustração e raiva que achei melhor guardar para um momento de menor stress. Como esse momento chegou, a frase inicial é: Vamos lá!

No último fim de semana, sexta, 10, e sábado, 11, eu bati ponto no Tendencies pra conferir a programação desta edição. Lucky number 13! Retirei meus ingressos no mesmo dia em que o Porkão anunciou que iria fazer a distribuição gratuita e isso significa que às 14h estava na porta do Culturação pra escolher quais dias iria comparecer ao festival.

O line-up estava interessante, e principalmente, pra mim, a programação do primeiro fim de semana parecia sensacional. Várias bandas tocantinenses que eu queria ver ao vivo há meses somados a grupos de fora que eu não queria perder por nada resultaram em uma programação excitante! O Moxine tinha sido um dos melhores shows que já tinha visto na casa há anos atrás e tava muito na pilha também pra ver o Ivan Márcio feat. Martin Burguez. Não deu outra, foi um fim de semana inesquecível de excelente música ao vivo.

Tudo poderia ser perfeito se não fosse por um detalhe: o público. Quando cheguei, ainda no primeiro dia do festival, encontrei um Tendencies vazio. Artistas com uma qualidade incrível fazendo apresentações para pouquíssimas pessoas. Achei que seria diferente no segundo dia, mas não foi. Mesmo com a distribuição de ingressos gratuitos, mesmo com a possibilidade de trocar uma entrada por um quilo de alimento até 18h do dia do evento, mesmo com uma programação sensacional, mesmo não tendo nada de exclusivo acontecendo na cidade naqueles dois dias específicos, o festival estava vazio. Isso me leva ao questionamento mais óbvio de todos: PORQUE? PORQUE? PORQUE?

Me desculpem, eu simplesmente não entendo. Porque mesmo que você não tenha dinheiro pra comprar cerveja você ainda pode se embebedar antes de sair de casa pra aproveitar a música! Mesmo que você diga que não sabia que os ingressos eram gratuitos, você ainda podia ligar no Tendencies, ou questionar o Porkão no Facebook o valor da entrada e ia acabar descobrindo que eram de graça. Todo mundo faz isso hoje em dia. É super simples, é super fácil. A culpa não é da programação, muito menos da falta de divulgação com flyers do festival rodando em todos os grupos de Facebook e Whatsapp que conhecemos. Assim, concluímos que É inadmissível – INADMISSIVEL – que aqueles shows não estivessem lotados. É o tipo de coisa que não se perdoa.

Vocês sabem que eu não gosto de rock pesado, heavy metal, hard core. Nunca gostei, não é a minha praia. Mas eu ia em TODAS as Rakans (não sei se é assim que escreve), aqueles eventos que o Pastor Alberto realizava na Feira Coberta da 304 Sul onde só rolava show de banda gótica, simplesmente porque queria estar perto de quem gostava de rock’n’roll como eu. Porque eu morava numa cidade que não existia uma cena, então qualquer possibilidade de encontrar pessoas que se rebelavam como eu, parecia um sonho, mesmo que não fosse o meu ideal de sonho com alguma banda tocando algo parecido com The Strokes.

Eu estava lá e continuo estando lá porque eu amo música, e nem música eu sou!! Eu sou apenas uma jornalista ruim tentando escrever um livro que provavelmente não vai ficar bom, mas que pode garantir pra vocês que 90% das melhores coisas que aconteceram na minha vida, que 90% das minhas experiências mais fantásticas foram assistindo a um show ao vivo. Não importa de quem. Eu ia pela música.

Não dá pra entender como não estava TODO MUNDO no Tendencies na semana passada. Como as bandas que estão na programação dessa semana não estavam no Tendencies na semana passada, como a galera que movimentava a cena no início dela (quando ela ainda nem era considerada nada), não estava no Tendencies na semana passada, como esse monte de menino e menina que anda pela rua usando camiseta do Led Zeppelin não estava no Tendencies na semana passada, como TODO MUNDO QUE TEM BANDA E QUE JÁ TOCOU OU USA O TENDENCIES COMO PALCO PRA SE APRESENTAR, não estava lá semana passada. Não-dá.

Como? Como a gente ficou assim? Como a gente deixou as coisas chegarem ao ponto de um festival consolidado, com uma puta programação não estar simplesmente lotado? A gente não tem vergonha? Porque eu tenho vergonha. Eu tenho vergonha pelos artistas que estão se apresentando e dando tudo e mais um pouco de si, não importa se eles são daqui ou se vieram de outros lugares, eu tenho vergonha de vocês por todos eles. Porque nada justifica isso, e se você falar alguma coisa contrária você vai estar simplesmente inventando desculpas mentirosas pra aliviar sua própria consciência.

Não é fácil gostar de rock. A gente cresce sendo esquisito, ouvindo isso de toda a família e com uns sentimentos de contestação do mundo e das coisas que parece que ninguém tem. A gente é inquieto e gosta de ouvir música barulhenta pra ficar calmo e as pessoas olham pra gente como se fossemos de outro mundo ou tivéssemos alguma doença contagiosa. Quando você gosta de rock você escolhe um caminho sem volta porque você não vai ser aceito em qualquer lugar e você vai ler tanto sobre as bandas que gosta, que se você for esperto, vai absorver mais um monte de informação que não tem nada a ver com música porque a arte é assim mesmo, uma loucura.

E eu acho que quando a gente se encontra, quando a gente se acha, quando a gente tem a oportunidade de reunir o máximo de pessoas num mesmo lugar pra ouvir música AUTORAL DE QUALIDADE, a gente tem a obrigação de ir. Por mais diferente que aquele som seja do que você escuta no seu mp3player. Sse você ama a música, se você ama o rock’n’roll você VAI. E VAI. E VAI. E VAI.

A cena nunca vai existir se a gente continuar lotando todos os tributos e festas com música pop dançante e não apoiar os artistas que escrevem suas próprias canções. Não importa se elas são boas ou não. Se não houver participação, se não houver gente pra trocar ideia, a cena nunca vai melhorar. Se não tiver público, não tem música. Vocês não entendem isso? Vocês não entendem que a gente tá regredindo??? Que a gente tá voltando no tempo? Pra um tempo onde não haviam festivais porque não havia público. Não estamos nem falando aqui de não haver festivais porque não tem ajuda nenhuma do poder público (e vale frisar que MESMO NÃO TENDO AJUDA NENHUMA DO PODER PÚBLICO PRA ESSA 13º EDIÇÃO, QUE JÁ DEVERIA FAZER PARTE DO CALENDÁRIO DE EVENTOS DA CIDADE, O PORKÃO FEZ O FESTIVAL ACONTECER), a gente tá andando pra trás. Antes a gente precisava de dinheiro e lugar, agora a gente tem os dois e uma puta força de vontade e vocês não estão lá.

Por isso, nesta sexta, 17 (lucky number 17!), você tem a oportunidade de se redimir. Eu compartilho esse texto bem cedo pra você entender que se você ainda não pegou seu ingresso GRATUITO, você precisa fazer isso e bater seu ponto logo mais no segundo fim de semana do festival. E eu to sendo dramática mesmo, porque to falando de um cenário como de ‘História sem Fim’, o filme clássico do Cinema em Casa da década de 90. Lembra da frase da princesa que dizia que ‘se você não fizer nada, Fantasia morrerá?’. Pois então. Essa responsabilidade é sua. Você que é artista nessa cidade, você que se orgulha de tocar um instrumento e usar uma calça rasgada e ouvir uma guitarra distorcida, você que como eu, ama a música com todas suas forças, a responsabilidade de manter a cena viva é minha, é sua e é de todos nós. Não importa se você gosta da banda, não importa se você gosta do gênero, você vai pra conversar com os amigos, pra ouvir algo diferente e pra trocar ideias. Pra movimentar a cena, pra fazer ela evoluir.

E novamente por isso, eu (esse texto está super pessoal e cheio desse pronome), aproveito pra compartilhar os shows desse fim de semana. Que não deviam nem importar na hora de você tomar essa decisão, mas quem sabe acaba sendo um incentivo a mais. Quanto a mim e a vocês, eu só tenho uma coisa a dizer: nos encontramos mais tarde.

Sexta-feira, 17
Trampa (DF)
Rocan (DF)
A Orden S/A (TO)
Etno (TO)
STF (TO)

Sábado, 18
DPR (SP)
Escarnnia (TO)
Girlie Hell (GO)
Indogma (TO)
Autocracia (TO)
Ágorah (TO)

Os shows começam às 21h45.
Os ingressos podem ser trocados até às 18h do dia do evento na loja Culturação, do lado do Tendencies, por um kg de arroz, feijão ou um livro de óleo.

Amar, Modo de Usar: Lançamento, entrevista e muito orgulho

4 maio

Diego Engenho Novo_divulg3

Nem sempre esse espaço consegue dedicar o tempo e as palavras que gostaria pra um segmento artístico que eu tanto valorizo, a literatura. Me enfurno nessa coisa de falar de música e não consigo sair disso, talvez, seja por causa da minha relação próxima com as palavras, não dá pra saber, mas antes que vocês reclamem, considerem esse post como uma forma de redenção. Ou pelo menos o início dela.

Começar escrevendo aqui sobre um lançamento de uma obra  que só foi possível por meio de um financiamento coletivo é algo que me deixa extasiada, sabem porque? Porque isso significa que as pessoas não desistiram de ler livros.  Que apesar de toda a frase feita de que ‘ninguém mais gasta dinheiro com isso’ eu percebo que isso não é verdade. Se um financiamento coletivo pra lançar um livro, consegue o tornar real, isso significa que as pessoas ainda precisam disso na vida delas e isso é de dar esperança nos dias de hoje.

E pros amantes da literatura, daqueles tradicionais que andam com livros nas bolsas e com uma lista de títulos pra adquirir, esse blog chega com notícias boas. Nesta sexta, 06 de maio, o Diego Engenho Novo (sim! aquele que cantava na banda Engenho Novo!), retorna a Palmas pra lançar seu primeiro livro, ‘Amar, Modo de Usar’.

Um compilado de crônicas ‘sobre amor, relacionamento, felicidade, família, sobre viver com verdade e delicadeza’, como mesmo diz o texto do financiamento no Kickante, que com esforço de amigos e uma campanha sobremaneira nas redes sociais atingiu sua meta. Sorte nossa né?

Como resultado da ajuda de 342 pessoas um total de R$20.462 foi arrecadado e como prometido, Diego tá chegando nesta sexta pra lançar o livro em Palmas, cidade que segundo ele foi a que mais teve participações nas doações do projeto. Daqui ele segue pra Gurupi pra fazer o lançamento por lá.

Depois de uma banda que tinha seus bons fãs tocantinenses, de uma mudança pra SP e de um blog delicioso de ler, Di chega agora com um novo filho nos braços. E pra todo mundo que tá curioso pra ler o livro, se liga no bate papo exclusivo e delicioso que eu tive via e-mail com o Diego. A conversa foi sobre amor, claro, mas também foi sobre como foi pra ele se encontrar como artista, sobre o Tocantins, sobre SP, sobre as relações no século XXI, sobre dar a cara pra bater e sobre esse livro que a gente tem tanto orgulho de chamar de nosso também. Então… Bora ler?

Di, quero começar a entrevista falando de você. O Diego já foi estudante de jornalismo, já teve banda, foi embora, trabalhou com redação publicitária e agora está lançando um livro sobre o amor. Quem é o Diego que as pessoas veem e conhecem e quem é o Diego para você que viveu esse caminho todo?

O mais engraçado é que eu acho que todas essas etapas fizeram muito sentido, Ciça. Hoje eu nem mesmo tenho violão em casa (preciso corrigir isso rapidamente!). Talvez volte a desenvolver algum projeto na música, mas eu curto mesmo cada fase a que me proponho. Eu acho que algumas pessoas têm dificuldade de entender que há uma diferença entre eu músico, que vivia na noite e esse meu período de agora, mais recluso em que estou escrevendo.

Você já teve banda e já foi envolvido com a música, como a arte de escrever virou literatura?
Ah, eu hoje vejo que eu sempre escrevi, né? Eu compunha as músicas da banda, gostava de contar histórias no palco, mas conforme fui me descobrindo como artista e pessoa, saquei que rebolar no palco era divertido, mas que eu não poderia fazer aquilo pra sempre. Além disso, por mais feliz que tenha sido como músico, o que faço hoje toca as pessoas de forma incomparavelmente mais profunda. Me realiza mais. Antes, eu era um músico que escrevia. Hoje me sinto mais como um escritor que gosta de cantar. Amanhã, sei não…rs.

Me fala sobre o livro, como foi o nascimento dessa obra? Do que ela fala?
O livro é uma reunião de cerca de 110 crônicas, algumas escritas nesses quatro anos da existência do meu blog, o Palavra Crônica, e outras inéditas. Apesar de ter selecionado textos com mais foco nos relacionamentos, tem também histórias sobre viagens, sobre o cotidiano. Tinha mandado ele pras editoras, mas o mercado está enfraquecido por causa da crise, o papel é comprado em dólar. Enfim, não queria esperar mais dois ou três anos para publicar. Decidi fazer de forma independente. Mãe solteira.

Você diz na descrição do projeto de financiamento do livro no kickante que seu sonho era estar próximo das pessoas e o livro seria um meio pra isso. As histórias contadas são uma visão sua do que aconteceu com as mulheres incríveis e fortes que inspiraram o livro, é outra coisa que você diz. Quem são essas mulheres? Amigas? Colegas de trabalho? Companheiras de uma viagem de metrô? E como essas histórias mudaram a sua percepção do amor?
Tenho sorte de ser cercado de mulheres incríveis: mãe, avó, irmã, amigas e pessoas que vou conhecendo também na rua, nos eventos. São Paulo tem sido muito rica nesse sentido, não somente por ser uma cidade grande, mas porque a impressão que tenho é que todo mundo aqui tem muitos sonhos, sonhos grandes e as melhores histórias surgem daí. Elas me ensinam constantemente sobre generosidade, sobre paciência, sobre se empenhar para estar numa relação. Tento transmitir isso de alguma forma, mas não estou dizendo que já coloquei tudo em prática (haha). Assim como todo mundo, eu tô tentando sobreviver a essa loucura toda.

‘Amar, Modo de Usar’ são 100 (mais ou menos) crônicas sobre o amor e suas co-relações. Na sua opinião, qual a maior dificuldade das pessoas hoje quando se pensa em amor? A configuração das relações sob o olhar das redes sociais, da internet, dos celulares, mudou alguma coisa na essência do modo de amar pra você? O amor mudou? As relações mudaram?
Tenho dó da gente, sabia? A gente, como sociedade. Nós, principalmente a minha geração que também é a sua, fomos educados num período de transição: ainda tivemos forte influência da concepção romântica das relações, do amor eterno das histórias da Disney, e a chegada das novas configurações de relacionamentos. Estamos perdidos nessa confusão aí: entre a vontade de ter alguém e a necessidade de sermos nós mesmos ao extremo, de não reprimirmos nossos desejos. A internet veio temperar ainda mais essa história: se por um lado ela nos permite estar mais próximos de quem amamos, por outro ela nos deu a falsa sensação de que pessoas mais interessantes podem surgir (e certamente surgirão), de que relacionamentos são descartáveis (e talvez sejam em certo nível) e de que os outros relacionamentos à volta são perfeitos. O que nós vemos dos casais à volta são viagens incríveis, carinho e afeto. Parece que todos têm relações muito mais favoráveis que as nossas. Essa falsa imagem está destruindo muitos relacionamentos, na minha visão. Estamos redescobrindo o relacionar-se. Eu só digo uma coisa pra vocês: tá complicado mesmo pra todo mundo. Vamo se abraçar, gente.

Hoje você mora em SP uma cidade gigante em que a vida de cada pessoa acaba sendo um pouco solitária, ou pelo menos essa é a sensação de quem vê de fora. Criolo cantou que não existe amor em SP, e acho eu que você deve ter escrito o livro, ou boa parte dele já na capital paulista. Como SP atuou nesse processo? A cidade e a maneira como as pessoas vivem aí, e consequentemente como você vive aí, influenciaram em alguma coisa? Definiram alguma coisa?
Olha, quando cheguei aqui isso foi uma das primeiras coisas que pensei: como as pessoas se relacionam, amam, são felizes numa cidade em que é tão fácil se perder do outro? Mas é justamente ver como o amor consegue ser fértil, mesmo num ambiente tão hostil que tem me inspirado muito. As pessoas se beijam nos engarrafamentos, ficam abraçadinhas esperando o metrô, existe muito amor em SP. Essa sensação de solitude elevada ao extremo, essa melancolia da cidade faz muito bem ao texto. Mesmo pessoas que moram em cidades menores sentem a mesma solidão das minhas personagens.

Você tem uma história com o Tocantins, mas hoje você já foi embora e agora volta para o lançamento do livro. Como é a sua relação com o Estado?
Sinto falta das minhas origens, das comidas, saudade de casa, né? E adoro falar sobre o Tocantins. As pessoas aqui acham fascinante saber como funciona Palmas, uma cidade planejada, como é o interior do estado, como é ter vivido em um estado que foi dividido ao meio. Ficam encantadas quando falo de Taquaruçu, do Jalapão, do pequi, dos bolinhos de araruta da minha vó. Minha relação é de orgulho. Meus melhores amigos estão no Tocantins. Mas também me sinto muito em casa aqui, gosto de como São Paulo provoca, se insinua. Eu quero que meu estado ainda possa se orgulhar muito de mim.

Porque fazer o lançamento em Palmas?  Como é voltar?
Durante a campanha, nós lançamos um desafio: a cidade com o maior número de contribuições receberia o lançamento. Felizmente foi Palmas. Mais de 40% das contribuições são daí. Por outro lado, eu sempre imaginei em ir lançar no Tocantins, porque as pessoas que mais amo estão aí, muitas delas estão no livro (inclusive sob pseudônimos). Desde que me mudei, eu voltei apenas uma vez pro Tocantins pra visitar a família e foi super às escondidas, porque queria passar o máximo de tempo possível com eles. Agora é uma chance de estar mais com outras pessoas que são importantes pra mim, tem também muita gente que eu não conheço ainda, leitores que surgiram depois que me mudei e ficam surpresos quando digo que eu vivi toda a minha vida entre Gurupi, Palmas e Araguaína. Voltar é incrível e quero poder fazer isso com mais frequência.

O processo pra fazer o livro acontecer veio do financiamento coletivo. Acredito que isso torna a consolidação do livro muito mais importante pra você, cada cota comprada, cada pessoa que participa. Como foi tudo isso?
Muito! Porque financiar um projeto dessa forma significa que as pessoas acreditam tanto no seu trabalho ou na sua intenção artística que decidem investir antes mesmo de você ter algo concreto para oferecer. Elas se arriscam junto com você. Não se arriscam a perder dinheiro, mas a se frustrarem. Toda a campanha foi trabalhosa, mas muito divertida. Cada pessoa que contribuía aproveitava pra dizer algo lindo, lembrar de algum momento, ou dizer que admirava o meu trabalho. Eu fiquei inseguro quando lancei a campanha. Conseguir R$15mil parecia muito. Parecia que as pessoas não viriam. Ultrapassamos os R$20mil e pude cuidar de perto de cada aspecto desse novo trabalho. Mas meu medo era não frustrar as expectativas dessas pessoas, mas assim que peguei o livro fiquei seguro de que todos ficariam tão felizes e orgulhosos do que fizemos juntos quanto eu.

Me diga e diga aos leitores do Blog da Ciça porque todo mundo precisa ler esse livro!
Porque esse livro fala sobre um lugar por onde todos já passamos ou ainda vamos passar e eu sou um ótimo companheiro de viagem.

capa-amar-modo-de-usar-3d2

EXPLICANDINHO
Palmas

O que: Lançamento do Livro ‘Amar, Modo de Usar’
Quando: 06/05, , 20h às 22h
Onde: Serreal – 103 norte av NO 05 lote 48 (antigo Roots, saída para Paraíso)
O que vai rolar também: Após o lançamento, show com o Quinteto Babaçu Jazz (ingresso R$ 5,00 até 23h)

Gurupi
Bamboo – Av. Bahia, esquina com Rua 07, Centro.
Lançamento do Livro 19h às 21h
Após 21h30, música ao vivo e couvert artístico de R$ 5,00